Catadores de esperança

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Catadores de esperança

A pele do rosto queimada de sol guarda marcas do tempo em que o trabalho era cercado pela fumaça e o odor forte do lixão de Canaã dos Carajás. Lembranças que a catadora Valéria Pereira da Silva, 43, jamais irá esquecer. Foram 10 anos trabalhando ao lado da família em condições precárias na busca do sustento, do mínimo para sobreviver. Tudo mudou quando o município passou a executar o Plano Nacional de Resíduos Sólidos, e fechou o lixão. Valéria viu naquilo que podia ser o fim se tornar a oportunidade de um recomeço.

Há quatro anos, ela e os demais catadores criaram a Coolettar, cooperativa de catadores de Canaã dos Carajás. Com apoio da Prefeitura, que cedeu um galpão na área industrial e um caminhão para a coleta nos bairros, a cooperativa passou a exercer a atividade de maneira mais digna coletando resíduos principalmente com alguns parceiros do comércio e da administração pública. Apesar de sair do lixão, o início foi difícil. Sem conhecimento do negócio, equipamentos de segurança, máquinas próprias para prensar o resíduo, o grupo quase desistiu.

Equipe de catadores da Coolettar trabalha para aumentar a capacidade da cooperativa

Porém, desde 2016, uma nova parceria deu novo fôlego para os profissionais. Por meio de incentivo programa Agir, da Fundação Vale, a Coolettar iniciou novo processo de construção de negócio. O projeto aprovado recebeu cursos de formação empreendedora, com assessoria nos processos produtivos, de gestão, governança e comercialização. Além disso, um aporte financeiro direto a compra de material de escritório, bebedouro, equipamentos próprios de prensa, caminhão, galpão de trabalho e equipamentos de segurança.

De catadora de lixo, Valéria exerce hoje a função de presidente da Coolettar e comanda dez pessoas responsáveis pela coleta, separação, prensa do resíduo e venda para compradores de fora, incluindo de outros estados, uma cadeia completa do empreendimento sustentável. “Antes eu me sentia diferente das outras pessoas, me sentia inferior, envergonhada. As pessoas vinham falar comigo e eu não queria falar, não gostava de falar o que eu fazia. Hoje eu tenho prazer de falar do meu trabalho. Vejo como uma empresa normal, que eu amo. E não é pelo dinheiro. Eu trabalho com isso porque eu amo, porque faz bem para a cidade, para a sociedade”, afirma.

Separação do resíduo é fundamental na valorização do material vendido

A qualidade do trabalho multiplicou a produtividade. Com o Agir, o projeto registrou o maior número de catadores, cerca de em 83%, e o crescimento de 209% na quantidade de material comercializado. O resultado é o aumento expressivo de 400% na renda e no faturamento do negócio.

Para Vanda Pereira da Silva, 45, irmã de Valéria, o trabalho melhorou muito depois das parcerias feitas com a Fundação Vale. “Hoje me sinto bem aqui. Isso aqui ajuda muito a minha renda familiar. Meu esposo trabalha ganhando diárias, ele é pintor. Nem sempre tem serviço. Aqui não, aqui todo dia tem”, conta.

Charles Pereira da Silva, catador da Coolettar, acredita que o trabalho ajuda a manter a cidade limpa

Charles Pereira da Silva, 23, filho de Valéria, que chegou a trabalhar no lixão quando era menor de idade pela sobrevivência, diz que a atividade é nobre e ajuda não só na renda familiar, mas no bem estar da sociedade. “A gente trabalha com resíduo, não com lixo. Lixo é um material que não tem mais utilidade, o resíduo gera renda, emprego, é reaproveitado. Por isso, que o nosso trabalho contribui para a melhoria da cidade, limpeza, organização, meio ambiente. É motivo para ficar orgulhoso pelo trabalho”, acredita.


Veja abaixo mais fotos da iniciativa:

A Coolettar adiquiriu balança que pesa com exatidão os pacotes de resíduos após a prensa
Do lixão à liderança da Coolettar, Valéria Pereira da Silva acompanha todo o processo da cooperativa
Escritório equipado organiza as atividades administrativas da cooperativa
Fachada Coolettar, que em breve vai mudar de endeço para um novo galpão mais espaçoso
Máquina de prensa mais segura e moderna agiliza o empacotamento dos resíduos
Valéria Pereira da Silva_Presidente da Coolettar
Vanda Pereira da Silva, catadora complementa renda familiar com trabalho na cooperativa


Valéria, que saiu de uma situação vulnerável, acredita que a cooperativa seja um bom negócio para trabalhar, digno e responsável, e não deseja migrar para nenhuma outra atividade profissional. “Eu me sinto uma mulher empoderada, especialmente quando passei a tomar a frente da cooperativa. Graças a tudo isso aqui me sinto uma pessoa capacitada e valorizada”, orgulha-se.

Assista ao vídeo sobre a iniciativa:

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