Protagonismo de comitê ambiental: construindo vitórias de mãos dadas

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Protagonismo de comitê ambiental: construindo vitórias de mãos dadas

Não se deixe enganar pelo jeito calmo de Manoel Mendes da Silva. Este homem com 47 anos, aparentemente tímido, de estatura média - pouco mais de 1,60cm - é capaz de mover o mundo para ver o desenvolvimento chegar até à região da Vila Feitosa, zona rural de Canaã dos Carajás, no Pará. Escolhida por ele há 16 anos para nela fazer morada, é também o lugar onde ele busca inspiração e garra para colocar a comunidade no rumo do desenvolvimento sustentável.

Presidente da Associação Comunitária dos Moradores de Vila Feitosa e Região – ASCOMVIFER, Seu Manoel vem garantindo conquistas importantes para a comunidade graças à participação ativa no Comitê de Educação Ambiental de Canaã. O fórum permanente atua há quatro anos no município estimulando o associativismo e a construção coletiva de uma cidade que dá orgulho de viver.

A ideia surgiu a partir de reuniões do Programa de Educação Ambiental da Vale na cidade e seguiu à risca a então recém-elaborada instrução normativa n°2 do Ibama, que prevê o uso da educação ambiental como ferramenta de transformação da vivência em comunidade. Em Canãa, a experiência transbordou a função inicial. Hoje, o colegiado conta com a participação de diversos atores da sociedade civil organizada do município - comunidade, setor privado e o poder público - que de braços dados traçam estratégias do crescimento sustentável da região.

Foi este formato inovador que permitiu, por exemplo, que o Seu Manoel, da Vila Feitosa, uma das 17 lideranças comunitárias convidadas a integrar o Comitê desde o início, conseguisse levar à discussão a necessidade de criação da Associação Comunitária. Lá, além de orientações, ele recebeu cursos de capacitação e de gestão, acompanhamento técnico e monitoramento que resultaram na esperada formalização da entidade.

O primeiro passo gerou conquistas aguardadas: a instalação do ambulatório de saúde para primeiros socorros, com visita semanal do médico, técnico de enfermagem e enfermeira, em dias alternados; a aquisição de 12 máquinas para o curso profissionalizante de capacitação de mulheres em de corte e costura; e o trabalho de Recuperação da Nascente da Vila Feitosa, por meio do plantio de mudas de espécies nativas, a menina dos olhos da comunidade.

De braços dados todo mundo ganha, se não der os braços quem sai perdendo é a comunidade”.

Parte das mudas usadas no projeto de recuperação da nascente veio do Viveiro Municipal da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Rural (Sempru), ampliado após a revitalização defendida no Comitê. Com investimento da Vale e por meio de parcerias, o viveiro que antes produzia 60 mil mudas por ano aumentou a capacidade para 200 mil mudas destinadas principalmente a projetos de horticultura, de arborização do município e de recuperação de APP’s, a exemplo de Vila Feitosa.

As mudas fortalecem a cadeia produtiva do cacau, do cupuaçu, açaí, acerola e frutíferas em geral e colabora para projetos de recuperação da cobertura verde da cidade. Roberto Ramos, funcionário da Sempru, coordenador do viveiro e membro do Comitê de Educação Ambiental acredita que nada disso seria possível sem o sentimento de coletividade que existe hoje no município.

O comitê discute de forma organizada com esse viés participativo levando em consideração as diversas opiniões. Isso é muito grandioso. Tanto a opinião da pessoa mais simples, assim como da equipe técnica, contribui para decisões.”

Outro exemplo de aproveitamento das mudas é o reflorestamento do Parque Natural Municipal Veredas de Carajás, localizado dentro do perímetro urbano do município. A reserva de 830 hectares cumpre papel fundamental na qualidade de vida dos moradores, pois abriga a Barragem do Veredas, responsável pela maior parte do abastecimento de água do município, além de guardar uma rica biodiversidade.

De tanta importância, o Comitê de Educação Ambiental lutou para transformar o Parque Veredas em Unidade de Conservação Municipal de Proteção Integral. E, por meio de um Grupo de Trabalho (GT) específico, a comunidade vem administrando outras medidas previstas no Plano de Manejo, como a implantação de área de acesso, com trilhas e atividades de contato com a natureza.

De acordo com Jardel Mesquita, geólogo, gestor do Parque Natural Municipal Veredas de Carajás, a vitória é de suma importância para a proteção permanente do Parque. “É uma área verde contínua à cidade, colado ao limite do perímetro urbano. Dentro do plano de manejo há uma área que será construída para receber visitantes, que poderão acessar a área, realizar trilhas, esportes e aumentar o contato da comunidade com a natureza”, explica.

Às vezes a solução não é só econômica, às vezes é uma ideia simples quando eu coordeno essas pessoas da sociedade”.

Luiz Rodrigues é outro personagem dessa história. Também conhecido como Luiz da Semente, Luiz do Mel ou Luiz das Abelhas, ele foi um dos primeiros moradores a iniciar o trabalho de plantio de sementes do Parque Veredas. Hoje ele retorna ao Parque para coletar as sementes num ciclo ativo de sustentabilidade.

Faço como as abelhas fazem a polinização, elas não fazem porque precisam, mas porque a natureza obriga a fazer algo que venha a se multiplicar. A mesma forma é meu trabalho, faço porque eu gosto de saber que vou deixar algo para as futuras gerações.

16 comunidades, 2 cooperativas, 2 sindicatos, Vale e Poder Público

Para Graça dos Reis, coordenadora do Comitê de Educação Ambiental, o projeto só deu certo porque em Canaã as pessoas se sentem ouvidas. “O nosso Comitê de Educação Ambiental deve ser replicado para outros lugares. É um espaço legitimo de discussão, que traz grandes transformações para a nossa comunidade”, afirma.

Nivia Costa, analista de sustentabilidade da Vale, se orgulha dos resultados alcançados em conjunto com a comunidade nos últimos quatro anos. “O Comitê trabalha na internalização de valores, na mudança de comportamento e de atitudes. A ideia é que a gente possa formar cidadãos comprometidos, corresponsáveis e participativos para que eles possam implementar as ações da política de sustentabilidade de meio ambiente com protagonismo e de maneira articulada. Esse é o grande diferencial”, acredita.