Talento para colher oportunidades

Iniciativas

Talento para colher oportunidades

Talento para colher oportunidades

Raimundo de Abreu tem 55 anos, nasceu no município de Bacabal, no Maranhão, e há 15 ganha a vida coletando folhas de jaborandi, na Floresta Nacional de Carajás. Filho de agricultores, estudou somente até a 4ª série da Educação Básica e hoje define sua profissão como folheiro ou sementeiro. Ele é um dos 35 trabalhadores autorizados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) a realizar coleta de folha de jaborandi e de sementes de espécies nativas na área.

Foi no ano de 1987 que Raimundo saiu de Bacabal para tentar a sorte em Parauapebas. Na bagagem, alguns pertences pessoais, esperança e o mais importante: muita disposição ao trabalho. A cidade em nada lembrava a Parauapebas de hoje. “Eram somente dois bairros: Rio Verde e Cidade Nova. Mas já era bastante comentada. Eu morava na beira da ferrovia (Estrada de Ferro de Carajás) e só ouvia falar desse lugar. Resolvi arriscar e estou aqui desde então”, recorda.

Vídeo

A baixa escolaridade, somada à falta de experiência profissional em qualquer outra área, além da agricultura, representaram obstáculos à sua inserção no mercado de trabalho. Para se manter, a solução imediata foi trabalhar na roça, atividade que já desenvolvia em sua terra natal desde a infância e com a qual tinha total familiaridade. O trabalho no campo foi, por anos, sua principal fonte de renda.

A trajetória do agricultor começou a mudar ao receber um convite que lhe traria não apenas novas perspectivas de renda, mas mudaria sua própria relação com a terra e a natureza: coletar folhas de jaborandi.

Nessa nova atividade a enxada foi aposentada. As plantações de milho e mandioca cederam lugar a um cenário tipicamente amazônico, com uma vasta e diversificada vegetação e o sol escaldante foi amenizado por sombras formadas pela densa floresta. “Olha a beleza que é meu local de trabalho”, elogia Raimundo.

Apesar da satisfação com o novo trabalho, Raimundo por anos desempenhou a atividade na informalidade. Além disso, utilizava antigas práticas de manejo e ainda dependia de atravessadores para vender a produção, o que acabava comprometendo parte do lucro.

Virada de página

Esse cenário começou a mudar em 2013, quando a Vale passou a desenvolver o Projeto Jaborandi, uma iniciativa realizada em parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a Cooperativa dos Extrativistas da Floresta Nacional de Carajás (COEX) e Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA). Além de pesquisas para produção de conhecimento sobre o ecossistema da planta, uma das estratégias foi tornar os próprios coletores de folhas em aliados do projeto e guardiões da espécie. A iniciativa favoreceu diretamente 33 famílias cooperadas que, desde então, vivem da coleta de forma estruturada.

Adoção de práticas sustentáveis

Para que a atividade dos extrativistas deixasse de representar riscos à preservação do jaborandi, foi necessário adotar técnicas sustentáveis de coleta. A principal delas é que as plantas passaram a ser podadas e não arrancadas, como costumava ocorrer. “A planta não é mais puxada pela raiz ou tem suas folhas raspadas. Isso acabava matando a árvore. Recebemos treinamentos e aprendemos a manejar da forma correta. Uma área em que trabalhamos num período, em poucos anos terá mais material para coletar. Antes a gente tirava com a mão e depois passamos a tirar com a tesoura”, conta Raimundo.

A atuação na Flona exige cuidados específicos, especialmente com o fogo. Os trabalhadores receberam orientações de como evitar ou controlar focos de incêndios. São regras seguidas à risca pelos folheiros. “O fogo tem que ser feito em uma área bem limpa, onde não voe faísca ou tenha árvores de onde possam cair folhas”, esclarece Raimundo.

Parceria garante renda o ano inteiro

Como a coleta da folha do jaborandi é uma atividade que ocorre somente em três meses do ano, existia a necessidade de criar mecanismos de geração de renda nos demais meses. Assim, foi firmado um convênio entre a Vale e a COEX que permite a compra direta de sementes de plantas nativas para uso no desenvolvimento de mudas, recuperação de áreas e conservação das espécies. Essa parceria também é muito importante para o aumento da diversidade de espécies e para a conservação daquelas ameaçadas de extinção.

Trabalho em família

Aos 36 anos, Francinaldo de Abreu, irmão mais novo de Raimundo, também não esconde a gratidão pela cidade que o acolheu ainda pequeno. “Aqui construí família, plantei minhas raízes e tive meus filhos. Parauapebas é a cidade que eu gosto de viver”, comenta. Ele também trabalha como folheiro. “Meu irmão já estava nessa atividade. Eu só sabia trabalhar na roça. Ele me convidou, aceitei e acabei me engajando. Trocar a roça pela coleta do jaborandi foi uma boa decisão”, conta.

Como é o trabalho dos folheiros na Flona de Carajás

Para que serve o jaborandi?

Em meio à diversidade da vegetação e da imponência da Floresta Nacional de Carajás, o jaborandi é uma planta que pode passar despercebida. Medindo 2 metros de altura, em média, ela tem grande relevância para a indústria farmacêutica e é utilizada na produção de cosméticos. Os benefícios da planta se estendem a várias pessoas no mundo, isto porque, a substância da folha do jaborandi é transformada em colírio para o combate ao glaucoma, a maior causa de cegueira no mundo. O jaborandi tem importância para a saúde global.

 
​​​​