Recuperação do Rio Doce é possível, segundo artigo

Comunicados

19/11/2015

Recuperação do Rio Doce é possível, segundo artigo

Em artigo publicado nessa quarta-feira, 18, no site Colabora, o jornalista Agostinho Vieira afirma que, ao contrário do que tem circulado nas redes sociais, o Rio Doce não está morto e pode ser recuperado.

“O boato sobre o falecimento do maior rio da região Sudeste vem se espalhando pelas redes sociais há alguns dias, mas não tem qualquer fundamento. É verdade que ele está em estado grave, mas a sua internação no CTI não aconteceu na semana passada. Ele vem respirando por aparelhos há vários anos e, mesmo assim, quase não recebe visitas dos parentes.

Se fosse possível fazer um ranking dos problemas do rio Doce, o terrível acidente de Mariana apareceria apenas em terceiro ou talvez quarto lugar. Antes dele, num incontestável primeiro lugar, está a crônica falta de saneamento do país. O rio tem 853 km de extensão e banha 228 municípios – 202 em Minas Gerais -, mas são poucos os que possuem um sistema adequado de coleta e tratamento de esgoto. O rompimento das barragens lançou no rio Doce 62 milhões de metros cúbicos de lama. Um tsunami de água, barro e resíduos de ferro. Mas que não é quase nada quando comparado com o volume de cocô in natura que chega às suas águas diariamente. Junto com a falta de saneamento, o pobre paciente sofre com as secas dos últimos anos e com o desmatamento irresponsável na região, que vem provocando um forte assoreamento. As matas ciliares foram dando lugar aos bois e às pequenas propriedades agrícolas.

Isso quer dizer que o acidente não teve importância? Claro que teve. Gravíssimo, terrível ou dramático. Seja qual for o adjetivo, ele vai passar. A lama vai baixar e a vida e o rio vão seguir o seu curso. A Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais) divulgou um laudo garantindo que não foram encontrados metais pesados no rio. Ontem, a cidade de Governador Valadares já voltou a captar e tratar a água do rio Doce.

Hoje, a pluma de lama chegará a Colatina, no Espírito Santo. Certamente, a prefeitura de lá também vai interromper o abastecimento por um ou dois dias. O professor Paulo Canedo, do Departamento de Hidrologia da Coppe, explica que o principal problema é a turbidez da água. Ela impede a passagem do sol, a fotossíntese e provoca a morte dos peixes e da vegetação aquática. Além disso, com níveis altos de turbidez, a água não pode entrar nas estações de tratamento. Daí a necessidade de interromper o abastecimento. Segundo Canedo, os maiores danos devem acontecer mesmo nos primeiros 100 km do rio, mas ele alerta para a importância do monitoramento ao longo de todo o percurso.

No entanto, o que não pode passar, de jeito nenhum, é a chance de resolver os velhos e novos problemas do rio de uma vez por todas. A crise criou a oportunidade, como teriam dito os chineses. O Instituto Terra, do fotógrafo Sebastião Salgado, tem um projeto grande de recuperação das nascentes, que foi apresentado à presidente Dilma e às empresas envolvidas. Ele não foi desenhado por conta do acidente, já existia. Mas precisa de apoio. Ricardo Valory, diretor-geral da Agência de Bacia de Águas do Rio Doce, diz que o órgão também tem um documento detalhado mostrando como tornar o rio mais saudável. Faltam recursos. Nas redes sociais, além de boatos, circulam movimentos como o ‘Viva Rio Doce’, organizado por pescadores esportivos com o objetivo de criar e repovoar o rio com espécies típicas da bacia.

É difícil calcular quanto custaria a recuperação completa do Doce. Alguns especialistas falam em algo entre R$ 10 bilhões e R$ 20 bilhões. Talvez seja mais. Certamente será um valor maior do que a ridícula multa de R$ 250 milhões aplicada pelo Ibama ou o acordo de R$ 1 bilhão feito pelo Ministério Público. Mas será muito menor do que os lucros e benefícios que empresas e governos tiraram do rio Doce ao longo dos anos. É hora de devolver. Não apenas investindo dinheiro, como tempo e vontade política para solucionar a questão.

Dizer que o rio morreu ou vai morrer, além de não ser verdade, cria um clima de desmobilização. Se já morreu, por que fazer alguma coisa? Nunca é demais lembrar que o rio Tâmisa, em Londres, chegou a ser considerado biologicamente morto. Hoje está limpo. O Tietê, em São Paulo, estava cheio de metais pesados, e vem sendo despoluído. Lentamente, é verdade, mas vem. Há muito trabalho a ser feito no Doce. O rio está vivo.”


Recuperação do Rio Doce é possível, segundo artigo